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"Change"
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Toda mudança é logo sentida quando começa no visual. E esse foi um dos grandes trunfos de Barack Obama em sua campanha presidencial nos Estados Unidos, sempre que mencionava a palavra "change" (mudança, em português) de sua boca negra, para um país historicamente racista, que aderiu ao discurso do momento, elegendo o primeiro presidente negro em toda a sua história.

As eleições na primeira potência do mundo foram peculiares. Tomado pela crise financeira mundial, criticado pelas guerras, com racismo ainda forte em alguns lugares daquele país, mudar era o verbo que os norte-americanos, e de certa forma o mundo, mais queriam ouvir e ver. Eis, então, que surge Barack Obama pelo Partido Democrata. Homem negro, humilde, de origens quenianas, descendente de muçulmanos, jovem. Nunca a palavra "mudar" esteve em tão personificada.

Mantendo-se longe dos extremos, Obama conseguiu conquistar o mundo. Ao seu país era questão de tempo. Com sabedoria e prudência necessária não dava chance para o azar, atenuando rapidamente as críticas oposicionistas. Para seu vice-presidente chamou Joe Biden, experiente congressista Democrata. Bem acessorado e com arrecadações recordes, Obama conquistava cada vez mais eleitores, tornando-se um verdadeiro fenômeno.

Do outro lado, seu rival John McCain fazia o possível para superá-lo. Porém, se Barack Obama era a mudança em pessoa, McCain representava a continuidade Republicana do governo Bush, o mais impopular presidente norte-americano, marcado negativamente pela crise financeira e pelas guerras mal explicadas.

Mesmo assim, McCain conseguiu realizar uma candidatura forte, entretanto mal direcionada. Com Bush à sua sobra, qualquer tentativa de agradar ao povo era árdua. No que pareceu ser um ato de desespero, a tônica de sua campanha fora os sucessivos ataques infundados a Obama. Com pouco dinheiro para investir, submetia-se a programas humorísticos e outros de baixa repercussão para fazer-se notar. Para sepultar suas mínimas chances de vencer o embate presidencial, chamou para ser seu vice-presidente Sarah Palin, governadora do Alasca, que já carregava consigo um histórico de uso indevido do dinheiro público daquele estado, além de ser bastante ingênua e prepotente. A derrota do que seria o presidente mais velho dos Estados Unidos era questão de tempo. Com um cenário totalmente favorável, Obama venceu e com folga. A mudança tão aconteceu. O primeiro presidente negro da primeira potência do mundo. Oportunidade ímpar para que o esteriótipo étnico desapareça da mente dos homens.

A mudança já começou a agir, porém de forma precavida e inteligente. Obama tem recrutado para seu futuro governo experientes líderes que outrora estavam com Bill Clinton, o presidente que levou a economia norte-americana a níveis nunca antes vistos. O mundo aguarda com expectativa. Barack Obama pode ser um divisor de águas na política e sociedade contemporânea. É história viva, bastando saber se será contada com bons ou maus sentimentos. O mundo aguarda com expectativa. É esperar para ver.

November 21, 2008 | 4:17 PM Comentários  0 comentários



Brasil para quem?
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As Paraolimpíadas de Pequim acabaram. O Brasil comemorou, mas não viu. Dezesseis ouros, quatorze pratas e dezessete bronzes. Nono lugar geral na classificação. Um recorde. Eles conseguiram. Eles se superaram de novo. Superaram uma vida limitada apenas fisicamente, pois entenderam que a força de vontade é a maior das forças que qualquer pessoa possui. Vontade de viver, de vencer, de ser útil. Mostrar que são capazes. E são. E mostraram. Mas ninguém viu.

Ninguém viu porque aceitar qualquer tipo de deficiência ainda é tabú no Brasil. A mídia não mostrou, não mudou toda sua grade de programação - como fez com os Jogos Olímpicos de pessoas "normais" - porque deficientes físicos não são vistos no Brasil. São ignorados, mal tratados, não possuem uma estrutura pública adaptada às suas condições motoras. Na absurda maioria do país, não. Têm dificuldades para arranjar emprego. As empresas não aceitam. Com certeza vão precisar de auxílio em algum momento. Melhor não. Graças a uma lei federal, 5% das vagas lhes são garantidas por direito. Ainda existe um resquício de bom senso no país.

Venceram nas Paraolimpíadas porque vencem todos os dias nas ruas. Subir a calçada, atravessar a rua, entrar no ônibus, sair do ônibus, banheiros, e a pior das adversidades: enfrentar o descaso de muitos seres que se dizem humanos. São humildes, perseverantes, vencedores verdadeiros. Existe muito a aprender com eles. Existem coisas que só serão descobertas com eles.

Brasil piada, Brasil hipócrita. Vangloria-se das glórias obtidas por uma parcela da população que é desprezada, que sofre, que precisa de apoio. Venceram sozinhos. O Brasil não tem nada a ver com isso. Deveriam ter ido aos jogos como delegação independente. Seus potenciais são altíssimos, porém interrompidos. Sua única má sorte foi ter nascido nesse país.

Enquanto para eles somente o fato de estar em uma Paraolimpíada já é a glória máxima, muitos atletas "normais" brasileiros não se conformam com o bronze, com a prata. Em gestos de repúdia ao resultado, esbravejam em entrevistas, retiram as medalhas do peito, ou nem as recebem. Esses podem ser considerados deficientes. De espírito.

Apesar de tudo, o resultado Paraolimpíco - independente de qual fosse - é importante para o país. Obriga-o a enchergar um grave problema crivado em suas entranhas. Se o presidente tivesse outros dedos a menos, a história poderia ser outra.

Brasil para as mulheres, Brasil para os jovens. Brasil para os idosos, Brasil para todas as tribos, religiões, culturas. Brasil para os deficientes físicos e mentais também. É assim que deveria ser.

October 8, 2008 | 11:48 PM Comentários  0 comentários



Qualidade de vida
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Muitos indicadores sociais são usados frequentemente para medir a qualidade de vida das pessoas em suas cidades. Saúde, segurança, educação, emprego e renda são requisitos são requisitos básicos para as aferições pesquisadas. Entretanto, deixam de lado um indicador essencial para a boa vivência dos cidadãos: o tempo gasto no trânsito para se locomover rotineiramente para o trabalho, escola, universidade. Até existe o fator transporte público, mas não analisado dessa forma.

Para a qualidade de vida ser realmente boa, em adição ao que as pesquisas indicam, as pessoas não deveriam ficar mais do que trinta minutos no trânsito em seus deslocamentos pendulares. Meia hora seria o máximo tolerável para a qualidade de vida ser considerada ideal, ou próximo disso. Mais do que esse tempo, e a qualidade de vida fica comprometida ou incompleta.

Ter um carro é muito fácil hoje em dia. O consumo crescente e os lucros igualmente vertiginosos diminuíram a burocracia. Porém, toda essa facilidade transforma-se em transtorno nas ruas superlotadas por automóveis em qualquer grande ou média cidade. Por enquanto, somente os pequenos e micro municípios estão livres desse fenômeno. Por enquanto.

Já nas metrópoles nacionais, o sonho de vencer na vida continua atraindo milhares de pessoas. Esse comportamento intensifica a instauração do caos nas cidades, que não possuem estrutura e planejamento para receber todo esse contingente populacional. E assim, a almejada qualidade de vida deteriora-se, vira pesadelo, decepção. Fato corriqueiro de países pobres, incluso o Brasil.

Reportagem recente de uma rede de televisão fez uma comparação entre os diversos meios de locomoção em São Paulo. O objetivo era analisar qual deles seria mais eficiente tanto do ponto de vista móvel quanto psicológico. Venceu a bicicleta, desprezada pela maioria dos governos supostamente bem intencionados. Catorze quilômetros percorridos em pouco mais de quarenta minutos de ótimo exercício físico e mental. Excelente. O caótico sistema público rodoviário, juntamente com o amor brasileiro, o carro, levou quase duas horas para fazer a mesma distância. Muito além dos trinta minutos saudáveis. Um absurdo. Mais ainda, se se analisar que o pedestre fez o percurso em duas horas e vinte minutos, aproximadamente. Só vinte minutos a mais, e muitas toneladas a menos de poluição.

No Brasil, uma série de circunstâncias históricas culminaram no modelo centralizador de bens e serviços essenciais à vida humana. Esse processo hoje acarreta o comprometimento da qualidade de vida das pessoas desses locais saturados. Elas, e as demais, alheias a esses meios, têm a difícil tarefa de optar entre viver nos grandes centros, usufruindo de todos os seus atributos, ou refugiar-se em "locus" menores, privando-se de determinados lazeres e utilidades quase que indispensáveis à vida.

Infelizmente, o modelo geoespacial é esse e invertê-lo leva mais tempo e persistência do que desde sua criação até os dias atuais. Requer consciência coletiva apurada. A reportagem ambientada em São Paulo reflete o que se passa no mundo todo. A estrutura física existe. O problema é chegar a elas. Megalópoles ou grandes cidades podem funcionar, desde que integradas ou com suporte regional de outras cidades. No atual sistema de isolamento não se sustentam. E mais: estão fadadas à involução, como certa vez disse Milton Santos, o mestre.

"Fugere urbem"? Pode ser, mas não é necessário tanto radicalismo. Bom senso e pensamento coletivo bastam. E assim as grandes cidades poderão, quem sabe, durmir.

September 28, 2008 | 9:18 PM Comentários  0 comentários



Cem anos sem proveito
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Há dois dias Brasil e Japão comemoraram - mais Brasil do que Japão - o centenário da imigração nipônica. Em 18 de junho de 1908 aportava no país o navio japonês Kasato maru, conforme acordo estabelecido no ano anterior. Desembarcaram aqui centenas de orientais cheios de sonhos, deixando para trás sua terra até então incipiente.

O tratamento que receberam não foi dos melhores. Aliás, tudo o que receberam não foi do melhor. O povo brasileiro, ainda com resquícios da escravidão, tratou-os covardemente confinando-os nos cafezais paulistas. Trabalhando todos os dias, o dia todo, o sonho de uma vida melhor diminuía com o tempo. Mal pagos e mal instalados, tiveram de se adaptar bruscamente à nova realidade, quase que deixando de lado sua cultura, seu modo de ser. Para a sorte do Brasil, e assim era de conhecimento do governo, os imigrantes agarraram-se em sua filosofia de dedicação e persistência, causando uma reviravolta no jeitinho brasileiro de ser.

Mais inteligentes do que seus anfitriões, os japoneses venceram todas as adversidades que lhes foram impostas, ajudaram o país a crescer e assim cresceram socialmente, disseminando sua cultura e invertendo os papéis com os habitantes locais, passando a exercer forte influência. O território era vasto e as oportunidades aumentaram fazendo com que muitos deles ficassem em definitivo, espalhando-se pelas demais regiões do país, exercendo de forma mais contínua seus costumes, conquistando o apreço dos brasileiros, legando-os a maravilhosa cultura oriental.

Por cem anos de paz e sucesso, comemora-se com louvor a imigração dos pioneiros e bravos japoneses. A festividade em terras brasileiras contou com a presença do príncipe japonês Naruhito e toda sua formalidade bonita de se ver. Em contraste a isso, ao presidente Lula e a comitiva de recepção só faltou erguer o príncipe e beijá-lo, tamanha a euforia que estavam. Percebendo isso, o ilustre visitante cedeu, quebrou o protocolo e deixou-se levar pelo jeitinho brasileiro, porém sem excessos.

Infelizmente, nesse vasto período de relacionamentos Brasil-Japão não foi possível assimilar por completo os ideais do oriente. Não por falta de iniciativa japonesa, mas sim porque o brasileiro já estava acostumado a viver de maneira fácil e malandra, o que acabou por inferiorizá-lo ainda mais. Exemplo disso é a constante entrada de produtos piratas fabricados na China. Mais baratos e menos burocráticos, a parceria realizou-se de maneira perfeita, condizente com os objetivos de cada Estado. Se ao invés disso o Brasil tivesse insistido mais nas relações econômicas com o Japão, hoje o país estaria em posição mais privilegiada no mundo, ostentando também maior prestígio e moral. Este comportamento nem o mais sábio e persistente japonês conseguiu mudar.

Em terra festeira, o que vale assimilar das nações amigas ajuda e enriquece a cultura local. Entretanto, se houvesse mais sapiência ao Brasil, provavelmente neste centenário de imigração japonesa o cenário, a forma e o conteúdo das comemorações seriam bem diferentes. Além de estatísticas culturais, talvez houvesse a celebração de positivos números econômicos, numa parceria financeira que teria tudo para dar certo. Uma pena que o país não se atente a este ponto. Quem sabe nos próximos cem anos.

June 20, 2008 | 5:07 PM Comentários  0 comentários



Uma porta aberta, outra fechada
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A Europa é conhecida mundialmente por sua tradicionalíssima história, inigualável cultura, notável influência global e vanguarda magnífica em várias áreas. Um continente conservador e ao mesmo tempo aberto ao novo, de população - em sua ampla maioria - intelectual, que sabe o que quer e como conquistar seus direitos. Na Europa também há o bloco socioeconômico de maior sucesso funcional, a União Européia (UE), servindo de exemplo a ser seguido pelos demais países por sua ideologia quase que perfeita. Quase, porque ultimamente o que se vê neste bloco de vanguarda é um retrocesso conservador e alienista em uma época de grande dinamismo da globalização.

O velho mundo se fechou mais uma vez às demais nações numa atitude claramente xenofóbica. O parlamento europeu aprovou leis mais severas e humilhantes a imigrantes ilegais que, como último subterfúgio, optam por uma viagem perigosa em busca de melhores condições de vida, deixando para trás a miserável condição de seu país de origem. O curioso é que a maioria destes imigrantes ilegais provém do continente africano, que outrora fora usado e roubado impiedosamente pelos mesmos europeus, deixando-o o estado caótico em que se encontra. Não sabiam eles que àquela época de neocolonialismo estavam plantando a semente de um grave problema econômico e social, visto aos outros olhos com indignação e discórdia.

Aquele continente é o que é hoje graças ao seu arrojo expansionista (conquistando riquezas alheias), dominação cultural (exibindo à visitação seus patrimônios) e, dentre outros fatores, grande capacidade de superação quando unido. Entretanto, a Europa que em seu bloco prega a livre circulação de pessoas é a mesma Europa preconceituosa e conservadora que quer se ver livre de seus ex-colonizados - aos quais ainda exerce muita influência - a todo custo, mesmo que isto fira os direitos humanos. Percebe-se nesta atitude a confusão em que se encontram os europeus, em estado de choque, medo, contradição. Sabe-se que o custo de vida lá é alto e que somente não é ainda mais alto porque existe abundante mão-de-obra barata, os imigrantes. Aproveitando-se de seu poderio econômico, o continente emprega milhares de pessoas a baixos custos, explorando novamente um contingente esperançoso, gozando de sua posição privilegiada no cenário global.

Imersa na armadilha que criou, a UE tenta viver de forma harmônica com este problema, escondendo do resto do mundo seu descontentamento. Porém, é praticamente impossível conter os ânimos de muitos de seus cidadãos que, muitas vezes exaltam publicamente o racismo por terem perdido seus empregos a um imigrante, pelo pavor da miscigenação, ou pura aversão as demais povos. Para acalmar o cidadão comum, o governo europeu age de forma incoerente, expulsando alguns grupos de imigrantes ilegais como resposta ao seu eleitor, num ato simplesmente alienista. É senso comum de que existem milhares de pessoas em situação irregular dentro do continente que só não foram deportadas ainda porque são úteis e submissíveis a trabalhos considerados inferiores.

Talvez mais contraditória que esta postura seja o fato de que a Europa é vista como o mais alto nível de consciência mundial, sempre à frente dos demais países com leis que protegem pessoas e natureza. Enquanto o mundo torna-se cada vez mais dependente e a globalização preza a livre circulação de pessoas, mercadorias e serviços, o continente europeu dá um passo atrás e fecha-se em conservadorismo exacerbado. A mesma porta que fecha para o mundo é aquela que quer ter sempre aberta a sua disposição. Uma infeliz incoerência de um povo líder em bons exemplos.

June 19, 2008 | 3:31 PM Comentários  0 comentários



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